Especialidades · Otoneurologia
Tontura e labirintite: o que é cada coisa e como se investiga
Tontura é um termo amplo: cabe nela desde a sensação de desequilíbrio até a vertigem, em que o ambiente parece girar. "Labirintite" virou o nome popular de quase tudo isso, mas descreve uma inflamação específica e pouco frequente. Identificar o tipo de tontura é o que direciona o exame e o tratamento.
Conteúdo revisado por Profa. Dra. Aline Bittencourt, CRM-MA 7562 Atualizado em
Tontura, vertigem e labirintite: qual a diferença?
- Tontura é o termo amplo. Inclui a sensação de cabeça leve, de instabilidade, de estar flutuando, de desequilíbrio ao andar.
- Vertigem é um tipo específico de tontura: a sensação de que o ambiente gira, ou de que a pessoa gira dentro dele.
- Labirintite é a inflamação do labirinto, a parte do ouvido interno responsável pelo equilíbrio. Costuma vir com vertigem intensa e perda auditiva, e é bem menos frequente do que o uso corrente da palavra faz parecer.
Essa distinção não é preciosismo. Cada grupo aponta para causas diferentes.
O que costuma causar vertigem e tontura?
| Causa | Como costuma se apresentar |
|---|---|
| VPPB | Crises curtas e fortes ao mudar de posição, sem perda auditiva |
| Neurite vestibular | Vertigem intensa por horas ou dias, sem perda auditiva |
| Doença de Ménière | Crises de vertigem com perda auditiva flutuante e zumbido |
| Enxaqueca vestibular | Tontura associada a enxaqueca, com ou sem dor de cabeça na crise |
| Causas não otológicas | Queda de pressão, medicamentos, alterações cervicais, ansiedade |
Como é a avaliação otoneurológica?
A consulta é a parte mais importante. O médico procura entender:
- Se gira ou se é instabilidade.
- Quanto tempo dura cada episódio: segundos, minutos, horas, dias.
- O que desencadeia: mudança de posição, levantar rápido, movimento da cabeça.
- Se há perda auditiva, zumbido ou sensação de ouvido cheio junto.
- Que medicamentos a pessoa usa.
Durante a consulta são feitas manobras específicas, que reproduzem a tontura de forma controlada e observam o movimento dos olhos. Esse movimento involuntário, o nistagmo, é o que denuncia qual parte do sistema está envolvida.
Os exames complementares, escolhidos conforme a suspeita levantada na consulta:
- Audiometria e imitanciometria. A audição faz parte da avaliação de toda tontura de origem no ouvido.
- Vectoeletronistagmografia (VectoENG) — registra os movimentos oculares em diferentes estímulos e avalia a resposta de cada labirinto.
- vHIT — testa a resposta de cada canal semicircular a movimentos rápidos da cabeça, com óculos de vídeo. Rápido e sem a tontura da prova calórica.
- VEMP cervical — avalia o sáculo e o nervo vestibular inferior, a parte do sistema que a prova calórica não alcança.
- Eletrococleografia — apoia a investigação da hidropsia endolinfática, associada à doença de Ménière.
- Posturografia — mede o quanto a pessoa consegue se manter estável em pé e orienta a reabilitação vestibular.
- Exames de imagem, quando há sinais que os justifiquem.
Quais são os tratamentos?
O tratamento segue a causa:
- VPPB — manobras de reposicionamento feitas em consultório, que devolvem os cristais ao lugar. É comum haver melhora expressiva já nas primeiras sessões.
- Neurite vestibular — tratamento da fase aguda seguido de reabilitação vestibular, um conjunto de exercícios que treina o cérebro a compensar a falha.
- Doença de Ménière — manejo clínico das crises e orientações sobre dieta e hábitos.
- Enxaqueca vestibular — tratamento da enxaqueca, em conjunto com o neurologista quando necessário.
Medicação para tontura tem lugar nas crises, mas usada continuamente por meses ela atrapalha a compensação natural do equilíbrio. Uso prolongado sem diagnóstico é um problema frequente.
Quando procurar atendimento de urgência
Tontura acompanhada de fraqueza ou dormência de um lado do corpo, dificuldade para falar, visão dupla, dor de cabeça súbita e intensa, ou perda auditiva súbita não deve esperar uma consulta agendada.
Fontes consultadas: Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) · Flint PW, Francis HW, Haughey BH, et al. Cummings Otolaryngology: Head and Neck Surgery. 7ª ed. Elsevier; 2020. · Bento RF, Bittencourt AG, Voegels RL. Seminários em Otorrinolaringologia. Fundação Otorrinolaringologia.
Perguntas frequentes
Dúvidas sobre otoneurologia
Tontura e labirintite são a mesma coisa?
Não. Tontura é o sintoma, e ela tem muitas causas. Labirintite é uma inflamação do labirinto, a estrutura do ouvido interno responsável pelo equilíbrio, e é bem menos comum do que o uso popular da palavra sugere. Chamar toda tontura de labirintite atrasa o diagnóstico correto.
O que é VPPB?
Vertigem posicional paroxística benigna. Pequenos cristais de cálcio se deslocam dentro do labirinto e provocam crises curtas e intensas de vertigem quando a pessoa muda de posição — deitar, virar na cama, olhar para cima. É a causa mais frequente de vertigem e costuma responder a manobras de reposicionamento feitas em consultório.
Que exames investigam a tontura?
Depende da suspeita. A avaliação otoneurológica costuma incluir audiometria e imitanciometria, testes de equilíbrio como a vectoeletronistagmografia e manobras específicas feitas durante a consulta. Exames de imagem entram quando há sinais que os justifiquem.
Quando a tontura é uma emergência?
Quando vem acompanhada de fraqueza ou dormência de um lado do corpo, dificuldade para falar, visão dupla, dor de cabeça súbita e intensa, ou perda auditiva súbita. Nesses casos, procure atendimento de urgência em vez de agendar consulta.
Tontura tem a ver com pressão ou com labirinto?
Pode ter a ver com os dois, e com outras coisas: alterações do ouvido interno, enxaqueca, medicamentos, alterações cervicais, ansiedade, queda de pressão ao levantar. Por isso a consulta detalha a característica da tontura antes de qualquer exame — é ela que separa as hipóteses.