Ouvido
Cera no ouvido: por que o cotonete piora as coisas
A cera não é sujeira: é a proteção do canal auditivo, e o ouvido tem um mecanismo próprio para eliminá-la. O cotonete interrompe esse mecanismo e empurra para dentro o que sairia sozinho.
Escrito por Profa. Dra. Aline Bittencourt, CRM-MA 7562 Revisado por Profa. Dra. Aline Bittencourt, CRM-MA 7562 Publicado em
Poucos hábitos são tão difíceis de desfazer quanto o do cotonete depois do banho. A sensação é de limpeza, o gesto é rápido, e a pessoa costuma ver cera na ponta — prova, aparentemente, de que valeu a pena.
O problema é justamente essa prova. O que sai na ponta é a parte que já estava saindo sozinha. O que não se vê é o que foi empurrado para dentro.
A cera não é sujeira
O cerume é uma secreção produzida pela pele do próprio canal auditivo. Ele lubrifica, mantém a acidez que dificulta a proliferação de fungos e bactérias, e retém poeira antes que chegue ao tímpano. Um canal sem cera nenhuma fica mais seco, mais sujeito a coceira e a infecção — e não mais saudável.
Além disso, o ouvido tem um mecanismo próprio de eliminação: a pele do canal cresce de dentro para fora, como uma esteira lenta, e carrega a cera até a saída. Em geral, o banho e o movimento da mandíbula dão conta do resto.
O que o cotonete faz de fato
O canal auditivo é estreito e o cotonete é largo. Ele até remove o que está na entrada, mas comprime o restante contra o tímpano, onde o mecanismo natural não alcança mais. Com o tempo, o acúmulo endurece e forma o tampão — que é, na maioria das vezes, um problema criado, não encontrado.
Há ainda dois riscos menos lembrados:
- Arranhar o canal. A pele ali é fina, e uma escoriação abre a porta para a otite externa, aquela que dói ao puxar a orelha.
- Atingir o tímpano. Basta um esbarrão para uma perfuração acontecer.
A mesma lógica vale para grampos, tampas de caneta, chaves e para a vela de ouvido — sobre esta última, não há benefício demonstrado, e há relatos de queimadura e de obstrução do canal pela própria cera da vela.
Sinais de que existe um tampão
- Ouvido tampado, de um lado só, que aparece de repente — muitas vezes depois do banho, quando a cera incha com a água.
- Queda de audição súbita, sem dor.
- Zumbido ou a própria voz ecoando dentro da cabeça.
- Coceira ou sensação de pressão.
Nenhum desses sintomas é exclusivo de cera. Perda auditiva súbita tem outras causas, algumas com urgência real de avaliação. Por isso “deve ser cera” não é um diagnóstico que se dê em casa.
O que fazer no lugar
Para a maioria das pessoas, a rotina é simples: lavar a parte externa da orelha no banho, secar com a toalha e não introduzir nada no canal.
Quando o tampão já está formado, a remoção é feita em consultório, sob visualização direta — com microscópio ou endoscópio, aspiração ou instrumento apropriado, conforme o caso. É rápido e, em geral, indolor. Em ouvidos operados, com tubo de ventilação ou com perfuração de tímpano, essa é a única forma segura, e a lavagem caseira está contraindicada.
Quando a cera deixa de ser o assunto
Se o ouvido tampado persistir depois da remoção, ou se voltar com frequência acompanhado de secreção, o assunto provavelmente não é a cera. Vale investigar o que há atrás do tímpano — é o tema da página sobre otite crônica — ou avaliar a audição com uma audiometria.